Que tal uma dose de auto-estima e perseverança?

Em homenagem ao dia do empreendedorismo feminino, entrevistamos três líderes de negócio, todas mulheres e cientistas, que fundaram suas próprias empresas e estão vencendo obstáculos a cada dia.

Você se reconhece homem ou gênero neutro e está lendo este post? Não vá embora. Tem lição pra você aqui também, sem contar que esse é um assuntos para engajar a todos! #ficaadica.

Neste post, contamos um pouquinho da história dessas mulheres no seu caminho empreendedor, suas motivações e dificuldades, e de quebra elas nos dão alguns conselhos para quem se engajar no mundo do empreendedorismo.

“Uma empresa gerida por mulheres é sem burocracia, sem enrolação. Ela quer tratar bem o cliente e se ela não puder fazer, ela passará adiante para alguém que possa.”

Helen da Rosa, SafeLab

“Inteligência e competência não têm gênero. Partindo desse pressuposto, você pode ser a única mulher em uma equipe de muitos homens.”

Ana Kleiner, Move4All

“Monte sua equipe com pessoas positivas e motivadas; procure pessoas que têm conhecimento complementar ao seu e tenha calma… não é possível fazer tudo na vida com perfeição em todos os momentos!”

Maria Magalhães, Scienco.

Uma recém doutora, uma pós doc e uma professora universitária.

Três momentos diferentes na vida acadêmica e também na vida empreendedora, mas a mesma mensagem: acredite em você, nos seus instintos e siga de cabeça erguida.

Parece clichê, mas, no fundo, não é mesmo isso o que fazemos?

Bióloga de formação e doutoranda em bioquímica pela UFRGS, a Helen da Rosa foi atraída para o empreendedorismo durante o doutorado pelo seu então futuro-sócio, um representante de produtos para laboratório que era sempre curioso sobre como as soluções químicas dos laboratórios eram feitas. A experiência em vendas e negócios uniu-se ao conhecimento técnico e juntos abriram a SafeQuímica, com o objetivo de produzir e fornecer para os laboratórios soluções padronizadas e com baixo custo. A bancada se transformou em galpão e hoje a Helen toca a SafeLab, com nova sócia e novo nome.

A Ana Kleiner é educadora física e seguiu carreira acadêmica se especializando em bioengenharia e biomecânica. Em meados de 2018, ela e os colegas Bianca Callegari, Anderson Belgamo, Givago da Silva Souza, Victor Coswig, Anselmo A. da Costa e Silva e André Cabral começaram a discutir conceitos no contexto da Saúde 4.0, com o objetivo de conscientizar profissionais da saúde sobre os benefícios da tecnologia para a prática profissional. Ela conta que “dessa iniciativa saíram alguns projetos de pesquisa, artigos publicados e uma vontade enorme de popularizar a chamada medicina baseada em evidências, ou seja, ferramentas para quantificação do movimento humano (marcha, postura, alcance, tremor das mãos, etc…)”.

Na contramão do que ouvimos às vezes por aí, empreender não é abandonar a ciência e sim, fazê-la de um jeito diferente. A Helen inclusive comenta sobre esse preconceito e o não apoio dos colegas de trabalho ou mesmo da família, quando decidiu empreender – o primo que vende pastel na porta da escola – pasmem – é considerado empresário e ela não!

Voltando para o caso da Ana, depois de dois anos de discussões, o grupo lançou o projeto MOVA4all com um objetivo bem simples: utilizar as mídias sociais e o YouTube para ações de divulgação científica voltadas para educação, movimento, saúde e tecnologia. Poucas semanas depois, a Ana resolveu abraçar o empreendedorismo e abre a empresa MOVA4all, para desenvolver aplicativos de celular, softwares e hardwares de baixo custo e sob medida para os clientes. O primeiro produto lançado, MOVAPlan1.0, consiste em uma planilha desenvolvida para personal trainers, que auxilia na prescrição da intensidade de corrida, de fácil manuseio e com diversos indicadores fisiológicos e mecânicos.

Há mais tempo no mercado, a farmacêutica Maria de Lourdes Magalhães, formou-se também na UFRGS e hoje é professora Associada na Universidade do Estado de Santa Catarina. Inquieta pela dificuldade de obter produtos para o laboratório a partir de empresas nacionais, resolveu sair do lugar e resolver este problema. Aproveitou o edital Sinapse da Inovação do Sebrae e embarcou de vez no empreendedorismo lá em 2016-2017. Hoje a Scienco fornece para todo o Brasil um portfólio de produtos para imunoensaios, entre outros, e recentemente conquistou mais um edital, o Tecnova II, co-financiado pela FINEP e pela FAPESC.

Tanto a SafeLab da Helen, quanto a Scienco da Maria fornecem seus produtos no iBench Market. Não perca tempo, cadastre-se gratuitamente hoje mesmo, e simplifique as compras e a prestação de contas do seu laboratório com a iBench.

A Scienco, das três empresas, é o que chamamos de empresa dedicada à biotecnologia, ou seja, que possui biotecnologia como competência chave da empresa. Não surpreendente, foi a empresa que mais precisou do auxílio de editais para iniciar e constrói seu nome hoje no mercado laboratorial e industrial. A ciência, porém, é fundamental para as outras duas empresas também, principalmente pelo conhecimento técnico gerado para que a oportunidade seja enxergada e transformada em produtos.

No caso da Mova4All, os parceiros construíram juntos a empresa, cada um com seu conhecimento. Estão dando passos pequenos, mas conquistando espaço cada vez mais, bem de acordo com as metodologias ágeis que ouvimos por aí. A Helen, por sua vez, foi a que correu mais risco financeiro: começou a empresa com um empréstimo bancário, apostando na produção e crescimento das vendas. Neste movimento veio a primeira lição: arriscar é importante, mas dar o passo maior que a perna pode ser complicado. O empréstimo foi utilizado para alugar um galpão grande demais, para o qual as licenças necessárias demoraram muito a sair. Hoje ela trata a questão com mais perspicácia e experiência, o que é o mais verdadeiro na essência do empreendedor: arriscar, observar e melhorar com os erros.

Mas o que o empreendedorismo feminino tem de especial?

O movimento do empreendedorismo feminino é especial para a iBench por uma razão óbvia: somos uma empresa lideradas por mulheres. Mas não somente, durante o caminho das fundadoras a desproporção de gênero também era óbvia: mentores, grandes clientes, líderes de outras organizações, investidores. Todos são sempre homens. No primeiro edital que ganhamos, somente 10% das empresas tinham mulheres na equipe. Um número ainda menor tinha essas mulheres como líderes.

Precisamos falar cada vez mais disso! Mas agora vamos voltar para nossas entrevistadas.

Perguntamos a elas se já tiveram alguma dificuldade durante a carreira por serem mulheres. Essa é uma pergunta às vezes vazia, pois, a não ser que o preconceito esteja ali claro e aberto, raramente vamos tratar como um obstáculo. Mas não é exatamente necessário que alguém nos diga diretamente “não quero investir na sua empresa, porque você é mulher” para que alguns desafios diretamente ligados às mulheres surjam no meio do caminho. A Maria conta que a única dificuldade que ela enxerga é em relação à maternidade, pois é difícil dar conta de tudo. Um pai dedicado também teria dificuldade, mas, no mínimo, não é ele que fica grávido, né?

A Ana também não relata dificuldades ou preconceitos específicos e se coloca como muito consciente de sua capacidade. Condizente com isso, enquanto trabalhou como pesquisadora no Departamento de Eletrônica, Informação e Bioengenharia da Politécnica de Milano, ela foi a primeira não-engenheira a ganhar uma competição internacional promovida pelo departamento. Venceu duas barreiras numa competição só!

A Helen, recém-doutora, mas já empresária, reforça que o apoio da esposa e da sogra são essenciais – ter parceiros que nos apoiam é de fato fundamental, não somente pela questão financeira, mas pelas imensas dúvidas que temos. Além disso, quem está nesta roda do empreendedorismo já sabe, os primeiros investidores são sempre do grupo FFF – friends, family and fools (do inglês, amigos, família e bobos).

Mulheres como líderes de empresas: quais os diferenciais?

Na opinião delas, mulheres são feras em gestão de equipe e gestão de tempo, empenhadas em tratar bem o cliente e construir uma relação de respeito, mais propensas a desafiar o status quo e mais tenazes e persistentes/resistentes aos obstáculos “no meio do caminho”. Poderíamos até divagar e dizer que, se as mulheres são criadas para cuidar da casa e isso fazem bem, sonho é trabalhar em uma empresa que também é considerada como casa por essas mulheres. Uma mistura de zelo, trabalho duro e determinação soa como regra neste ambiente.

Top dicas para mulheres empreendedoras (e talvez para todos os empreendedores?):

Confie em você.

Acredite no seu conhecimento, nas suas decisões, na sua ideia. Seja sincera com você o máximo possível, para ter certeza de que é você mesmo que está tomando uma decisão. Mas mesmo que pareça que você está indo para o lado contrário de todos, continue. Possivelmente é você quem está certa.

Nesse viés, a Maria comentou que um dos maiores desafios que ela teve foi validar o produto junto a grandes clientes. Essa sabatina de clientes e investidores é quase como ter que defender uma tese de doutorado todas as vezes. De resiliência, as cientistas entendem.

Construa a melhor equipe.

E a melhor equipe pode ser aquela complementar às suas competências, que vai trazer recursos que você não tem, mas, que acima de tudo, vai estar do seu lado para o que der e vier. Como a Ana fala, não dá para ter gente morna na equipe: ou está de corpo e alma, ou vai para outro projeto.

Organize-se.

Pense, repense, construa e desconstrua sua ideia. Planeje os bons e os maus momentos. Entenda a viabilidade, os riscos e as necessidades da empresa. Se você acha que já sabe tudo, pergunte-se mais uma vez, mas não tenha medo de errar. Você vai errar. O imprescindível é saber aprender com cada erro.

Aprenda a lidar com a montanha russa de emoções.

Não tem jeito, se não sabe brincar, não desce pro play. Não tem caminho fácil aqui, mas tem ganho de todos os lados se souber enxergar. Então, controle a ansiedade, respire e tenha calma. Vontade de desistir é muito comum, mas conquistar cada cliente é um momento de felicidade.

Que venham muitos!

Para finalizar este post, uma “dica” iBench para você – já ouvimos coisas do tipo “não sorria demais, você não parece séria assim” ou “coloca um salto alto e vai conquistar esse cara”.

Se ouvir algo assim no seu caminho e não concordar, volte à primeira dica, jogue parcialmente o jogo e siga em frente, ainda temos muito a percorrer.

19/11/2020
Postado por Débora Moretti
Categoria: Entrevistas
Pesquisadora na Universidade de Bonn, Alemanha e co-founder/CMO na iBench.

Newsletter

Receba diretamente no seu email editais e oportunidades do mundo da ciência