Relato de uma cientista empreendedora

Eu decidi ser cientista com 9 ou 10 anos de idade. Devia estar na quinta série e estudava sobre o Egito. Me encantei de cara com aquela civilização e decidi me tornar egiptóloga, uma arqueóloga com especialização em Egito. Meu sonho era ficar escavando e encontrando mundos perdidos. Mal sabia eu que o empreendedorismo era mais um mundo a ser explorado e descoberto.

Claro que minha mãe vetou essa ideia. Médica de carteirinha, achava que a filha tinha que ser médica também. Mais especificamente, neurocirurgia. Na época eu fazia artesanato e tinha uma boa mão e muita paciência. Ela enxergou ali mesmo meu suposto talento.

Mas com um pouco de paciência e persuasão a gente chega onde quer. No meu segundo ano do ensino médio, assisti a palestra do professor Franklin Rumjanek, da UFRJ, sobre o curso de biomedicina que ele havia ajudado a criar. Foi imensamente fácil migrar a paixão pelo Egito para a paixão pela biomedicina. Biologia e química sempre foram as minhas disciplinas preferidas mesmo. Não somente, era mais fácil convencer a mamãe, porque né, importante entrar em acordo.

Meu tempo na universidade foi o melhor dos mundos. Estudei na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a qual sempre foi e sempre será uma casa para mim. Pode ter seus problemas, mas o amor permanece. Foi ali que saí da bolha para encontrar o mundo. Foi ali que me descobri capaz de muita coisa. Durante toda a faculdade tive a certeza de que ia percorrer os longos anos de estudo para me tornar professora universitária e continuar fazendo pesquisa. Eu adorava dar aula e, apesar de reclamar, até ia feliz para o laboratório nos finais de semana. Muita gente que entra para a biomedicina quer achar a cura do câncer ou da AIDS, quer estudar o mal de Alzheimer, quer entender as células tronco, essas pesquisas da moda. Eu queria achar uma solução para malária, como boa filha de sanitarista e ia lá cuidar dos meus mosquitos no final de semana.

Até que a idade adulta começou a bater na porta…

Eu tinha 19 anos quando me formei e iniciei o mestrado, em 2009. No último semestre da faculdade, fiz uma disciplina sobre empreendedorismo em biotecnologia, estavam começando a falar sobre este assunto, lá no instituto de bioquímica. A essa altura eu já achava que a pesquisa que eu fazia estava distante demais da sociedade e isso me incomodava. Quando falamos sobre empreendedorismo, comecei a realizar o quão gigantesca, na verdade, era essa distância e comecei a me desiludir. A ciência básica é muito importante para a geração do conhecimento, mas talvez não fosse para mim.

Durante os anos seguintes, me desenvolvi cada vez mais uma cientista empreendedora e já não via a bancada como meu dia a dia. Nessa época, entendi que muitos pesquisadores queriam levar suas pesquisas para o mercado, ou sejam queriam se tornar cientistas empreendedores, mas não sabiam como. A partir daí, resolvi me tornar essa ponte.

Não foi uma escolha fácil, tampouco racional. Lembro-me de uma amiga me perguntar: “mas quem vai te empregar?”. Respondi que não sabia, que teria que criar este mercado também.

Depois de várias experiências, hoje volto para a UFRJ como essa ponte (ainda me construindo) e como cientista empreendedora, com uma primeira solução na mão, e isso tem muito a ver com o momento que estamos passando hoje. Desde o início da crise econômica, após os anos de ouro da pesquisa brasileira, as universidades sofrem com o corte cada vez maior de verbas.

É claro que o nosso orçamento nunca se comparou com o de países desenvolvidos, mas tivemos liberdade para brincar durante algum tempo. De um lado, isso gerou pesquisas magníficas e oportunidades para a ciência brasileira. Por outro, o gradual corte de verbas deixa absolutamente claro como nossa máquina é ineficiente e, também, como dependemos do dinheiro do governo.

Você pode argumentar: “mas a geração de conhecimento não pode ficar à mercê do mercado, precisa ser incentivada pelo governo”. Concordo. Mas concordo parcialmente. Não podemos esquecer que a ciência serve à sociedade. E me arrisco a dizer que isso sim está esquecido. Quando ouvimos o mercado, ouvimos a necessidade das pessoas. E esta equação está sim desequilibrada. Isso não significa que amputar os membros das universidades vai fazer com que elas criem braços e pernas biônicos da noite para o dia. O que quero dizer é que o simples corte de verbas além de não resolver problema nenhum, pode gerar uma falha ainda maior. É necessário muito trabalho para construir os caminhos para a inovação e o empreendedorismo, ainda mais o empreendedorismo científico, ou seja, com soluções baseadas em ciência. Antes disso, ainda, é necessário reconhecermos que temos uma máquina ineficiente e que precisamos falar sobre isso. Precisamos de solução para a ineficiência.

E é aqui que o empreendedorismo entra: do lado prático, mais conhecido por todos traduzido como “abertura de empresas”, a iBench é um exemplo da luta pelo reconhecimento da ciência brasileira, não somente pela qualidade dos seus estudos, mas pelo melhor aproveitamento dos seus (já escassos) recursos..

Buscamos eficiência em termos de tempo, de gasto, de segurança e de transparência. Do lado social, empreendedorismo significa resiliência e criatividade. Significa fazer muito com pouco. Significa errar, reconhecer o erro e aprender com ele. Nós, brasileiros, temos isso entranhado em nosso sangue. Já sofremos muito nessa nossa história e, ainda assim, alcançamos altos patamares. Nosso problema é que, como diz uma grande colaboradora minha, são as mesmas cinco pessoas que fazem todas as coisas acontecerem. Essas são as grandes empreendedoras, cada uma com seu trabalho de formiguinha. Mas essa atitude precisa se espalhar. Precisamos ser mais colaborativos, menos egoístas e aprender a utilizar os recursos da forma mais inteligente possível.

A iBench está provendo uma pequena solução dentro desse mundo, mas é só a nossa primeira. Junto com as grandes parceiras Andreia Oliveira e Bruna Novis, também cientistas empreendedoras, lançamos em fevereiro de 2019 o iBench Market, o primeiro marketplace para produtos laboratoriais do. Somos como a Amazon da ciência: lá os pesquisadores podem encontrar produtos de diversos fornecedores e assim comparar preços de forma imediata, por exemplo. Os vendedores, por sua vez, podem expor seus produtos a uma gama de pesquisadores que não está restrita a sua limitação geográfica. Além disso, bater de porta em porta é gasto de tempo e recursos, enquanto atender seu cliente da melhor forma deveria ser sua maior preocupação!

Como falei, essa é só nossa primeira solução. Muito mais vai vir por aí. Advogamos por um mundo mais empreendedor, mais eficiente e mais transparente. Queremos simplificar a vida do cientista.

O Brasil está passando por uma fase muito difícil, mas estamos aqui para transformar dificuldade em oportunidade e queremos ver todos nessa onda!

Concorda comigo? Deixa seu comentário aqui! Discorda de mim? Perfeito, vou adorar saber seu lado! Vamos papear.

03/09/2019
Postado por Débora Moretti
Categoria: Histórias
Pesquisadora na Universidade de Bonn, Alemanha e co-founder/CMO na iBench.

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